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Curiosidades sobre o Santuário

Quantas casas Deus já teve entre os homens?

A narrativa bíblica menciona seis santuários, incluindo o primeiro e o último, criados sem a intervenção de um arquiteto humano. Os outros quatro santuários foram construídos ao longo de cerca de quinze séculos, cada um apresentando características arquitetônicas que frequentemente não são abordadas em análises gerais. Este texto se dedica a explorar essas particularidades, além de analisar como será a habitação final de Deus com os homens.

O Éden como santuário

Um santuário se define, essencialmente, pela habitação divina. A ordem Divina estabelecida em Êxodo 25:8 é que se faça um santuário para que o próprio Deus habite no meio do seu povo, e a visão final de Ezequiel encerra o mesmo movimento ao descrever o templo como o lugar do trono onde Deus habitará perpetuamente entre os filhos de Israel (Ez 43:7), bem como ao nomear a cidade restaurada com a expressão que significa “o Senhor está ali” (Ez 48:35). Em Gênesis 2, esse conceito é claro, pois o jardim não foi fruto da ação humana, mas sim plantado pelo próprio Senhor (Gn 2:8). Adão foi colocado nesse espaço por uma ação externa, não como proprietário, mas como mordomo de um local que pertencia ao próprio Deus.

A designação de sua função deixa ainda mais claro, uma vez que o par verbal de Gênesis 2:15, traduzido por lavrar e guardar, reaparece no Pentateuco para descrever o serviço dos levitas diante do tabernáculo (Nm 3:7-8; 18:5-6). Some-se a isso o conjunto de correspondências com as prescrições de Êxodo 25 a 28. Deus anda no jardim segundo a mesma forma verbal empregada depois para sua presença entre as cortinas (Lv 26:12); a entrada volta-se para o oriente e passa a ser guardada por querubins (Gn 3:24), tal como querubins bordados no véu e esculpidos sobre a arca vedavam o acesso ao santíssimo (Êx 26:31-33); e o ouro e a pedra de ônix mencionados em Gênesis 2:11-12 reaparecem entre os materiais do santuário e do éfode sacerdotal (Êx 28:9,20). O paralelo mais eloquente, todavia, encontra-se no candelabro, árvore estilizada de amêndoas e flores (Êx 25:31-40), bem como no rio que sai do Éden (Gn 2:10) e volta a correr, em Ezequiel, por baixo da soleira do templo, margeado de árvores cujas folhas servem de medicamento (Ez 47:1-12). Diante desse cenário, o Éden não se aproxima de um santuário por analogia poética ou por uma falsa analogia que não está fundamentada na bíblia, e sim porque era o lugar de habitação do próprio Deus, de modo que todas as construções posteriores podem ser lidas como tentativa de restituir aquela habitação perdida.

O tabernáculo de Moisés (século XV a.C.)

Model of the tabernacle, Israel, Timna Park

O tabernáculo foi construído como uma estrutura desmontável, uma vez que acompanhava um povo em deslocamento. As tábuas de acácia não eram pregadas umas às outras, mas se apoiavam cada qual sobre duas bases de prata (Êx 26:15-25), o que permitia desarmar o conjunto em poucas horas. Quatro camadas de cobertura protegiam o edifício (Êx 26:1-14), que não possuía janela alguma, razão pela qual a iluminação do lugar santo provinha inteiramente das sete lâmpadas do candelabro (Êx 25:31-40). O véu que separava os dois compartimentos não alcançava o teto, e por isso a fumaça do incenso passava por cima dele e enchia ambos os ambientes ao mesmo tempo (ANDREASEN, 1948, cap. 2). A pia do pátio, por sua vez, foi fundida com os espelhos de bronze doados pelas mulheres (Êx 38:8), e se tornou em utensílio de purificação.

O templo de Salomão (966–959 a.C.)

A edificação do templo de Salomão levou sete anos e ocorreu em um ambiente de tranquilidade, pois as pedras eram entregues prontas da pedreira, conforme o relato bíblico, sem que se ouvisse o som de ferramentas como martelos ou machados (1Rs 6:7). Internamente, o templo era adornado com cedro que revestia as pedras, enquanto o ouro cobria o cedro, incluindo o piso (1Rs 6:20-22). Salomão ordenou a criação de dois querubins de oliveira, cada um com aproximadamente quatro metros e meio de altura, cujas asas se estendiam de parede a parede, totalizando cerca de nove metros (1Rs 6:23-28). Em comparação ao tabernáculo, que possuía um único castiçal, o templo foi equipado com dez, assim como a mesa dos pães da proposição (2Cr 4:7-8). Além disso, o mar de fundição, uma bacia de bronze com um palmo de espessura, era sustentado por doze bois de metal, três voltados para cada direção, e tinha capacidade para mais de setenta mil litros (1Rs 7:23-26).

O templo de Zorobabel (516 a.C.)

O templo de Zorobabel, caracterizado por sua simplicidade e longevidade, foi erguido em um contexto de emoções contrastantes. Durante a cerimônia de lançamento dos alicerces, a alegria dos jovens se destacava, enquanto os anciãos, que haviam conhecido o templo anterior, expressavam sua tristeza de forma tão intensa que os sons se misturavam, tornando difícil discernir um do outro (Ed 3:12-13). Essa reação é explicada pelo Talmude (Yoma 21b), que aponta a ausência de cinco elementos essenciais do primeiro templo: a arca, o fogo sagrado, a Shekinah, o espírito de profecia e o Urim e Tumim. No lugar santíssimo, restava apenas uma pedra, a even shetiyah, onde o sumo sacerdote colocava o incensário no Dia da Expiação. Assim, mesmo em um espaço quase desprovido de simbolismo, o templo cumpriu sua função para Israel por quase quinhentos anos (cf. ANDREASEN, 1948, cap. 2).

O templo de Herodes (a partir de 20 a.C.)

O projeto de Herodes não se tratou da construção de um novo templo, mas sim da reforma do templo de Zorobabel. Os judeus, desconfiados do idumeu, exigiram que todo o material necessário estivesse disponível antes do início da demolição da primeira pedra, enquanto os sacerdotes impuseram uma condição adicional, que proibia leigos de tocarem nas áreas sagradas. Para atender a essas exigências, Herodes treinou mil sacerdotes nas funções de pedreiros e carpinteiros, além de contratar dez mil operários (JOSEFO, Antiguidades judaicas, XV, 11, 2). O edifício central ficou pronto em ano e meio, enquanto os pátios consumiram oito anos, e a obra somente se encerrou por volta de 64 d.C., o que explica a menção aos quarenta e seis anos registrada em João 2:20. O mármore branco recoberto de lâminas de ouro levou Josefo a compará-lo a uma montanha coberta de neve (JOSEFO, Guerra dos judeus, V, 5, 6).

A esplanada dobrou de área e alcançou cerca de 144 mil metros quadrados, o que fez dela o maior recinto sagrado do mundo romano (RITMEYER, 2006). Os blocos de contenção foram assentados a seco, sem argamassa, e um deles pesa perto de 570 toneladas. No forro do lugar santíssimo havia alçapões pelos quais se descia uma caixa fechada com operários em seu interior, de modo que os reparos nas paredes se realizavam sem que ninguém visse o recinto (MISNÁ, Midot 4:5). Sobre o pórtico estendia-se uma videira de ouro cujos cachos alcançavam a altura de um homem (JOSEFO, Guerra dos judeus, V, 5, 4; MISNÁ, Midot 3:8), bem como um parapeito de pedra, denominado soreg, cercava o átrio interno e sustentava placas em grego que advertiam os estrangeiros de que a passagem implicava pena de morte (JOSEFO, Guerra dos judeus, V, 5, 2). Clermont-Ganneau encontrou uma dessas placas intacta em 1871 e a publicou no ano seguinte (CLERMONT-GANNEAU, 1872), estando ela hoje conservada em Istambul, ao passo que um segundo fragmento veio à luz em 1935. Trata-se do registro material da acusação dirigida a Paulo em Atos 21:28, bem como do muro de separação que Efésios 2:14 declara derrubado. Em 70 d.C., todavia, não restou pedra sobre pedra.

Face a face com Deus: Nova Jerusalém e Novo Éden como habitação final de Deus entre os homens

Todos os santuários construídos por mãos humanas serviram como uma escola para ensinar aos homens que um dia Deus voltaria a estar face a face com o homem. Desde que o privilégio de estar com Deus foi perdido no Éden, aquele primeiro santuário onde o Senhor caminhava e falava com Adão (Gn 3:8), os santuários mostravam como Deus estava agindo para reconciliar a humanidade consigo. O grande dia do encontro entre o homem e Deus era o santo sábado, o santuário no tempo; neste dia o homem tinha a revelação especial, pois o próprio Deus estava ali com ele, ensinando sobre tudo. No entanto, ao desobedecer a Deus, a humanidade ficou separada do seu Criador (Is 59:2). Todo o plano da salvação, a habitação de Deus com os homens, a reconstrução do novo céu e da nova terra, foi demonstrado através do santuário, pois o próprio propósito declarado por Deus foi: “E me farão um santuário, para que eu possa habitar no meio deles” (Êx 25:8). Deus, em Sua infinita misericórdia e amor, estava dizendo que um dia o sábado seria restaurado, e o dia do encontro voltaria a ser uma eterna realidade. As funções salvíficas foram estabelecidas no santuário para restaurar esse encontro, para que o homem pudesse estar face a face com Deus.

A Nova Jerusalém é a consumação desse ensino. O lugar santíssimo do templo de Salomão media 20x20x20 côvados, um cubo perfeito (1Rs 6:20), e o único outro cubo perfeito de toda a Bíblia é justamente a Nova Jerusalém (Ap 21:17): a cidade é o Santíssimo, o lugar do trono de Deus, enquanto o Éden restaurado corresponde ao lugar santo, com a árvore da vida (Ap 22). Por isso naquela cidade não há templo, ela não precisa de um santuário porque é o próprio santuário, a habitação de Deus com os homens. A nova Jerusalém será a capital do governo unido de Deus, o novo mundo onde finalmente estaremos face a face com Ele (Ap 22:4).

Referências

ANDREASEN, M. L. O ritual do santuário. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1948.

BIDMEAD, J. The Akitu Festival: Religious Continuity and Royal Legitimation in Mesopotamia. Piscataway: Gorgias Press, 2002.

CLERMONT-GANNEAU, C. “Une stèle du temple de Jérusalem”. Revue Archéologique, v. 23, 1872, p. 214-234; 290-296.

CARAMELO, F. “O ritual do Akitu: o significado político e ideológico do Ano Novo na Mesopotâmia”. Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, n. 17, 2005.

JOSEFO, F. Guerra dos judeus, V; Antiguidades judaicas, XV.

MISNÁ. Tratado Midot. In: Seder Kodashim.

RITMEYER, L. The Quest: Revealing the Temple Mount in Jerusalem. Jerusalém: Carta, 2006.

SALES, J. das C. Política(s) e cultura(s) no antigo Egipto. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas, 2015.

SANTOS, A. R. dos. “Um lugar de encontro entre o homem e os deuses”. Revista Portuguesa de Ciência das Religiões, v. 2, n. 3/4, 2003, p. 189 196.

TALMUDE BABILÔNICO, tratado Yoma 21b.

WALTON, J. H. O pensamento do antigo Oriente Próximo e o Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2021.

WILKINSON, R. H. The Complete Temples of Ancient Egypt. Nova York: Thames & Hudson, 2000.

Marcos Alves
Bacharelando em Teologia pelo SALT-FAAMA e Pós graduando em Interpretação bíblica pela (FUV), Missiologia (Iguaçu) e Ciência e Religião (Iguaçu).

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