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Os “Filhos de Deus” e os nefilins de Gênesis 6

Quatro versos separam a genealogia de Adão do anúncio do dilúvio — e neles se esconde uma das passagens mais estranhas de toda a Bíblia:

“Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram. […] Ora, naquele tempo, havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade.” — Gênesis 6:1-2, 4

Quem são esses “filhos de Deus”? Quem são os “gigantes” — no hebraico, nefilins? E que casamentos foram esses, capazes de figurar como a gota d’água antes do dilúvio? Três respostas disputam a interpretação do texto há mais de dois mil anos.

Primeira resposta: anjos caídos

A leitura mais antiga que conhecemos é também a mais espetacular: os “filhos de Deus” seriam anjos que abandonaram sua posição, tomaram mulheres humanas e geraram os nefilins — uma raça híbrida de gigantes. Essa interpretação domina a literatura judaica do período entre os Testamentos: o livro apócrifo de 1 Enoque dedica capítulos inteiros à queda desses “vigilantes”, e o historiador Flávio Josefo repete a tradição. Seus defensores apontam que, em Jó, a expressão “filhos de Deus” designa seres celestiais (Jó 1:6; 2:1; 38:7).

O problema é que a leitura cria mais dificuldades do que resolve. Jesus ensinou que os anjos “nem casam, nem são dados em casamento” (Mt 22:30) — a sexualidade e a reprodução pertencem à ordem criada dos seres de carne. O texto de Gênesis descreve casamentos formais, não ataques: “tomaram para si mulheres” é a expressão hebraica corriqueira para casar-se. E, sobretudo, o juízo anunciado em seguida cai inteiramente sobre os humanos: “O meu Espírito não agirá para sempre no homem… a maldade do homem se havia multiplicado… arrasarei da face da terra o homem” (Gn 6:3, 5, 7). Se anjos fossem os culpados da corrupção, seria estranho que o dilúvio punisse apenas as vítimas.

Segunda resposta: reis tiranos

Uma leitura mais recente vê nos “filhos de Deus” os reis e potentados do mundo antediluviano. No antigo Oriente Próximo, reis se intitulavam “filhos” dos deuses, e a frase “tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram” soaria como a descrição de haréns reais — poligamia e abuso de poder institucionalizados, no espírito violento de Lameque (Gn 4:19, 23-24). Os nefilins, “valentes, varões de renome”, seriam os tiranos célebres dessa aristocracia da força.

É uma leitura possível e com bons insights — a violência e o culto à fama certamente fazem parte do quadro de Gênesis 6. Mas ela precisa importar para o texto um uso de “filhos de Deus” que a própria Bíblia não registra para reis pagãos, e não explica bem o contraste deliberado com as “filhas dos homens”.

Terceira resposta: a linhagem de Sete

A terceira leitura — defendida por muitos intérpretes cristãos desde a antiguidade e adotada pela compreensão adventista — pede apenas uma coisa: que leiamos Gênesis 6 depois de Gênesis 4 e 5. E é exatamente isso que os capítulos anteriores preparam.

Após a queda, a humanidade se divide em duas linhagens. De um lado, a descendência de Caim (Gn 4), marcada pela cidade, pela poligamia e pela vingança. De outro, a descendência de Sete, sobre a qual o texto diz: “daí se começou a invocar o nome do Senhor” (Gn 4:26) — a linhagem da adoração, que Gênesis 5 percorre de Adão até Noé, passando por Enoque, que “andou com Deus”.

Nesse contexto, os “filhos de Deus” são os setitas — o povo do concerto, chamado pelo nome do Senhor — e as “filhas dos homens” são as mulheres da linhagem apóstata. A linguagem tem eco no restante da Escritura, que chama repetidamente o povo de Deus de seus filhos: “Vós sois filhos do Senhor, vosso Deus” (Dt 14:1; cf. Êx 4:22; Os 1:10). O pecado de Gênesis 6, portanto, não foi biológico, mas espiritual: a fronteira entre a igreja e o mundo foi apagada por casamentos guiados apenas pela aparência — “viram que eram formosas” ecoa, palavra por palavra, o “viu que era agradável aos olhos” do Éden (Gn 3:6).

Ellen G. White descreve exatamente esse processo em Patriarcas e Profetas: enquanto se mantiveram separados, os descendentes de Sete conservaram o culto a Deus; mas, ao se misturarem com os descendentes de Caim, atraídos pela beleza de suas filhas, contaminaram-se com seus costumes e perderam “sua peculiar e santa característica” — e em poucas gerações a fidelidade quase desapareceu da terra.

E os nefilins?

Restam os “gigantes”. A palavra hebraica nefilins é de origem discutida — muitos a ligam ao verbo nafal, “cair”, donde “caídos” ou “os que fazem cair” (atacantes, violentos); a Septuaginta traduziu por gigantes. Dois detalhes do próprio texto ajudam a desinflar o mito:

Primeiro, os nefilins não são apresentados como fruto dos casamentos. O verso diz que eles “havia… na terra” naqueles dias — eles já estavam lá — “e também depois”. São o pano de fundo da época, não o produto de uma união sobrenatural.

Segundo, a descrição que o texto lhes dá é social, não genética: “valentes, varões de renome” — os heróis, os homens de fama. Gênesis 6 retrata uma civilização que admirava a força, celebrava a violência e escolhia por aparência. Não à toa, o verso seguinte resume: “a terra estava corrompida… e cheia de violência” (Gn 6:11). Quando o termo reaparece em Números 13:33, está na boca dos dez espias covardes, inflando o relato para justificar a própria incredulidade — dificilmente uma base sólida para construir doutrina sobre gigantes.

Os dias de Noé e os nossos

Por que essa discussão importa? Porque Jesus fez de Gênesis 6 um espelho profético: “Assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem. Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento…” (Mt 24:37-38). O que arruinou o mundo antediluviano não foi uma invasão de anjos — foi algo assustadoramente comum: a assimilação. Casamentos, escolhas e alianças feitos sem Deus na equação, geração após geração, até que a linha entre o povo de Deus e o mundo simplesmente deixou de existir.

O apelo do texto permanece de pé em pelo menos três direções:

A identidade se perde por diluição, não só por rebelião. Ninguém na linhagem de Sete decidiu, num dia, abandonar a Deus. Eles apenas foram cedendo, casamento a casamento, concessão a concessão. É o mesmo alerta de Paulo sobre o “jugo desigual” (2 Co 6:14): as alianças mais íntimas da vida — a começar pelo casamento — moldam a fé mais do que qualquer discurso.

Beleza não é critério suficiente. “Viram que eram formosas… tomaram as que mais lhes agradaram.” A tragédia começou com escolhas guiadas pelos olhos. Numa cultura de imagem como a nossa, o diagnóstico dispensa atualização.

Ainda há um “filho de Deus” a ser. A expressão que Gênesis 6 aplica à linhagem fiel, o Novo Testamento oferece a cada pessoa em Cristo: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus” (1 Jo 3:1). A pergunta do texto, no fim, não é sobre anjos nem gigantes — é se os filhos de Deus de hoje viverão como tais, distintos e fiéis, enquanto a longanimidade de Deus, como nos dias de Noé, ainda aguarda.

“Assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem.” — Mateus 24:37


Referências

Textos bíblicos citados: Gênesis 3:6; 4:19-26; 5; 6:1-11; Êxodo 4:22; Números 13:33; Deuteronômio 14:1; Jó 1:6; 2:1; 38:7; Oseias 1:10; Mateus 22:30; 24:37-39; 2 Coríntios 6:14; 1 João 3:1. As citações seguem a versão Almeida Revista e Atualizada (ARA).

Escritos de Ellen G. White:

WHITE, Ellen G. Patriarcas e Profetas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira. Capítulos “Sete e Enoque” e “O Dilúvio”. p. 80-92.

Fontes de apoio:

COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA. v. 1. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira. (Comentário sobre Gênesis 6:1-4.)

1 ENOQUE, capítulos 6-16. In: Apócrifos e pseudepígrafos do Antigo Testamento. (Tradição judaica dos “vigilantes”; citado como fonte histórica da interpretação angelical, não como Escritura.)

JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas, livro 1. (Registro da tradição angelical no judaísmo do século I.)

HAMILTON, Victor P. The Book of Genesis, Chapters 1–17. Grand Rapids: Eerdmans, 1990. (The New International Commentary on the Old Testament.)

WENHAM, Gordon J. Genesis 1–15. Waco: Word Books, 1987. (Word Biblical Commentary, v. 1.)

MATHEWS, Kenneth A. Genesis 1–11:26. Nashville: Broadman & Holman, 1996. (The New American Commentary, v. 1A.)

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