
O que o texto diz — e o que não diz
O relato de Gênesis 2–3 é mais econômico do que a memória cultural sugere. O texto hebraico refere-se apenas ao peri (פְּרִי, “fruto”) da “árvore do conhecimento do bem e do mal” (ets hada’at tov vara). Em nenhum momento a narrativa identifica a espécie do fruto. A maçã, tão presente em pinturas, filmes e até logotipos, é uma construção posterior — e sua história revela muito sobre como a Bíblia foi lida, traduzida e imaginada ao longo dos séculos.
O papel da Vulgata e o trocadilho latino
Quando Jerônimo concluiu a tradução latina das Escrituras (a Vulgata, por volta de 405 d.C.), o hebraico tov vara (“bem e mal”) tornou-se boni et mali. Ocorre que, em latim, malum é um termo ambíguo: com vogal breve, significa “mal”; com vogal longa (mālum, do grego mêlon), significa “maçã”. A “árvore do conhecimento do bem e do mal” (lignum scientiae boni et mali) passou a carregar, para o leitor latino, um eco fonético inevitável entre o mal e a maçã.
Não há evidência de que Jerônimo pretendesse o trocadilho, mas ele estava disponível — e a cultura visual do Ocidente medieval o adotou. Historiadores da arte costumam apontar que a associação se consolida sobretudo a partir do final da Idade Média e do Renascimento: a gravura Adão e Eva de Albrecht Dürer (1504) e as diversas versões do tema por Lucas Cranach, o Velho, no século XVI, apresentam a maçã de forma inequívoca, fixando a iconografia que herdamos.
As hipóteses da tradição judaica
Séculos antes da maçã se popularizar, os sábios do judaísmo já debatiam a identidade do fruto — e a maçã sequer aparecia entre as candidatas. A literatura rabínica (por exemplo, no Talmude, Berakhot 40a, e no midrash Bereshit Rabbá 15:7) registra ao menos quatro hipóteses:
O trigo, ligado à ideia de que o conhecimento se associa ao pão e ao trabalho humano de transformar a natureza. A uva (ou o vinho), pela conexão entre a videira e a perda de controle, tema recorrente na Bíblia hebraica. O figo, hipótese com apoio no próprio texto: logo após comerem do fruto, Adão e Eva costuram folhas de figueira para se cobrir (Gn 3,7) — na lógica midráshica, “aquilo com que caíram foi aquilo com que se repararam”. O etrog (cidra), fruto de valor litúrgico no judaísmo.
Vale notar um detalhe agronômico: a macieira domesticada não era uma cultura típica do antigo Oriente Próximo, ao contrário da figueira, da videira e da romãzeira, todas abundantes na paisagem bíblica. O “pomar” simbólico de Israel simplesmente não tinha a maçã como protagonista.
Por que o texto silencia?
Aqui a curiosidade histórica encontra a teologia. O silêncio do texto sobre a espécie do fruto dificilmente é acidental. A narrativa de Gênesis 3 não está interessada em botânica, mas em antropologia teológica: o que está em jogo é o limite, a confiança e a autonomia humana diante de Deus — não a química de um alimento. Identificar o fruto seria, em certo sentido, rebaixar o símbolo. Comentaristas clássicos e modernos convergem nesse ponto: o fruto funciona como significante aberto, e é precisamente essa abertura que permitiu à história ser relida por cada geração.
O que esse caso nos ensina
Três lições ficam desse percurso:
Primeira: toda tradução é interpretação. Um detalhe fonético do latim ajudou a criar uma imagem que o hebraico jamais autorizou. Ler a Bíblia com seriedade exige consciência das camadas de mediação entre o texto original e nós.
Segunda: a arte também faz teologia. Dürer e Cranach formaram o imaginário cristão sobre o Éden tanto quanto muitos pregadores. O que “todo mundo sabe” sobre a Bíblia é, com frequência, o que a cultura visual ensinou.
Terceira: voltar ao texto é um ato de humildade. Descobrir que a maçã nunca esteve lá não empobrece a narrativa — ao contrário, devolve ao relato sua força simbólica original e nos convida a perguntar o que ele realmente quer dizer.
Para aprofundar
- Gênesis 2,15–3,24 (recomenda-se comparar traduções: Almeida, Bíblia de Jerusalém, NVI)
- Talmude Babilônico, Berakhot 40a; Midrash Bereshit Rabbá 15,7
- Robert Alter, A arte da narrativa bíblica — sobre a economia narrativa do texto hebraico
- Azzan Yadin-Israel, Temptation Transformed: The Story of How the Forbidden Fruit Became an Apple (2022) — estudo recente e acessível sobre a história da iconografia da maçã
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