Alguns versos da Bíblia passam despercebidos por anos até que, numa leitura atenta, saltam da página com uma pergunta. Isaías 66:17 é um deles. Na tradução de Almeida Revista e Atualizada, lemos:
“Os que se santificam e se purificam para entrarem nos jardins após a deusa que está no meio, que comem carne de porco, e abominação, e rato serão consumidos, diz o Senhor.”
Uma deusa? Em pleno livro de Isaías? O que está acontecendo nesse texto — e por que outras traduções nem sequer mencionam essa figura?
O contexto: cultos nos jardins
Primeiro, a cena. O final de Isaías denuncia um problema recorrente em Judá: o sincretismo. Havia pessoas que não abandonavam abertamente o Deus de Israel, mas misturavam Sua adoração com ritos pagãos praticados em jardins e bosques sagrados. O próprio Isaías já havia tocado nesse ponto: “vos envergonhareis dos jardins que escolhestes” (Is 1:29), e pouco antes do nosso texto ele descreve um povo “que sacrifica em jardins” e come “carne de porco” com “caldo de coisas abomináveis” (Is 65:3-4).
Esses jardins funcionavam como santuários alternativos — espaços de fertilidade, vegetação e ritual, típicos dos cultos cananeus e mesopotâmicos. E o detalhe mais chocante do verso 17 é que os participantes se santificavam e se purificavam para entrar neles. Ou seja: cumpriam ritos de consagração, com toda a aparência de devoção religiosa — mas para adorar da maneira errada, no lugar errado, seguindo o guia errado.
O mistério do texto hebraico
Agora, a “deusa”. A expressão hebraica por trás dela é curiosamente enigmática: ‘achar ‘achad batavek — literalmente, “após um(a) que está no meio”. O texto não traz a palavra “deusa”; traz o numeral “um”. E aqui entra um detalhe fascinante da transmissão do texto bíblico.
Os massoretas, os escribas judeus que preservaram o texto hebraico, registraram nesse verso uma diferença entre o que está escrito (o ketiv) e o que deve ser lido (o qerê). A forma escrita é masculina — “após um que está no meio”. A forma indicada para leitura é feminina — “após uma que está no meio”.
Essa pequena vogal abre duas interpretações principais:
Um líder ritual no centro. Na leitura masculina, o “um no meio” seria o sacerdote pagão ou hierofante que conduzia a cerimônia: os adoradores entravam no jardim em procissão, imitando cada gesto do oficiante que ficava ao centro. Traduções como a NVI seguem essa linha: “seguindo aquele que está no meio”.
Uma divindade feminina. Na leitura feminina, o “uma no meio” seria a imagem de uma deusa posta no centro do jardim — provavelmente Aserá, a deusa cananeia da fertilidade, cujo culto envolvia justamente árvores e postes sagrados e que seduziu Israel repetidas vezes (2 Rs 21:7; 23:4-7), ou uma figura como Istar/Astarote. Foi essa leitura que a Almeida Revista e Atualizada adotou ao traduzir “a deusa que está no meio”.
As duas leituras, no fundo, descrevem o mesmo quadro: uma liturgia pagã organizada, com um centro de atenção que não era o Senhor.
Porco, rato e abominação: o cardápio da rebeldia
O verso completa a cena com o banquete ritual: carne de porco, ratos e “abominação” — termo que designa os animais imundos de Levítico 11 e Deuteronômio 14. Nos cultos pagos do antigo Oriente, comer certos animais impuros fazia parte da comunhão com a divindade. Para o israelita, era transgressão em dose dupla: idolatria no ato e desobediência no prato.
É significativo que essa denúncia apareça no último capítulo de Isaías, num contexto explícito de juízo final: “o Senhor virá em fogo… para exercer a sua ira” (Is 66:15-16), e logo em seguida o profeta descreve os novos céus e nova terra, onde “de sábado em sábado, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o Senhor” (Is 66:22-23). O contraste é deliberado: de um lado, a falsa santificação dos jardins, com seu culto inventado e sua mesa profana; do outro, a verdadeira adoração, no tempo que Deus santificou, diante do próprio Deus.
O que esse verso diz a nós
Talvez ninguém hoje entre em procissão num bosque atrás de uma imagem de Aserá. Mas o mecanismo espiritual de Isaías 66:17 é atemporal, e vale a pena nomeá-lo:
Religiosidade não é o mesmo que fidelidade. Aquelas pessoas se “santificavam e purificavam” — havia esforço, rito, aparência de consagração. O problema não era falta de religião; era religião nos termos humanos, não nos termos de Deus. Adoração verdadeira não se mede pela intensidade da devoção, mas pela direção dela.
Seguir “o que está no meio”. Seja um líder carismático, seja uma deusa no centro do jardim, o texto retrata adoradores que imitam um centro errado. É um alerta permanente contra toda espiritualidade que gravita em torno de qualquer coisa — pessoa, imagem, experiência — que tome o lugar que pertence só a Deus.
O corpo também adora. A menção à carne de porco e aos animais imundos, num texto sobre o juízo final, lembra que a Bíblia nunca separa espiritualidade e vida física. Para a fé adventista, que vê no cuidado com o corpo um ato de mordomia e adoração (1 Co 10:31), é notável que a última página de Isaías ainda trate o desprezo às orientações alimentares de Deus como parte do retrato da rebeldia — e não como detalhe ultrapassado.
No fim, a “deusa entre os jardins” permanece parcialmente envolta em mistério — o hebraico garante isso. Mas a mensagem do verso é cristalina: Deus não aceita ser adorado de qualquer jeito. Entre os jardins da religião autofabricada e o sábado dos novos céus e nova terra, Isaías nos convida a escolher o culto que tem o Senhor — e somente Ele — no centro.
“Porque, assim como os novos céus e a nova terra que farei estarão diante de mim, diz o Senhor, assim há de estar a vossa posteridade e o vosso nome.” — Isaías 66:22
Referências
Textos bíblicos citados: Isaías 1:29; 65:3-4; 66:15-17, 22-23; Levítico 11; Deuteronômio 14; 2 Reis 21:7; 23:4-7; 1 Coríntios 10:31. As citações seguem a versão Almeida Revista e Atualizada (ARA); a comparação de traduções inclui a Nova Versão Internacional (NVI).
Fontes consultadas:
BÍBLIA HEBRAICA STUTTGARTENSIA. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997. (Texto massorético de Isaías 66:17, com o registro do ketiv e do qerê.)
COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA. v. 4. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2013. (Comentário sobre Isaías 65–66.)
MOTYER, J. Alec. The Prophecy of Isaiah: An Introduction and Commentary. Downers Grove: InterVarsity Press, 1993.
OSWALT, John N. The Book of Isaiah, Chapters 40–66. Grand Rapids: Eerdmans, 1998. (The New International Commentary on the Old Testament.)
WESTERMANN, Claus. Isaiah 40–66: A Commentary. Philadelphia: Westminster Press, 1969. (Old Testament Library.)
YOUNG, Edward J. The Book of Isaiah. v. 3. Grand Rapids: Eerdmans, 1972.






